Melancolia

Começo esse livro falando sobre a melancolia, pois se existe um sentimento que sempre está comigo é a tristeza.

Segundo o dicionário, a melancolia pode ser definida como “tristeza vaga e indefinida”, ou ainda, “estado de tristeza intensa, traduzido pelo sentimento de dor moral”.

Essa tristeza indefinida talvez seja o que me define. Não é falta de gratidão, não é vitimismo, nem tão pouco falta de Deus, como muitos tendem a simplificar. Desde muito pequeno sinto a tristeza em mim, como mais um membro do meu corpo, cresci com ela, penso que até me acostumei a ela, pois mesmo nos momentos de alegria eufórica, bastava um olhar para o lado e lá está ela, me acenando.

Ao longo desse livro, por várias vezes, vou voltar a esse tema, afinal, eis um ponto para o qual busco respostas, mas nesse momento, ainda não estou na fase da elaboração, mas sim, nos levantamentos hipotéticos desse sentimento que, infelizmente, se personificou em mim.

Acredito que a minha tristeza tem várias causas, que vão desde a tristeza adquirida, afinal, nasci numa família onde a tristeza sempre foi uma marca, não verbalizada e assumida, é claro, mas sentida em todos os seus aspectos, portanto, posso dizer que a minha tristeza é transgeracional.

Existe a porção de tristeza ambiental ou circunstancial, que é aquela a que todos estamos expostos, de certa forma, afinal, como um ser racional, dotado de inteligência e sentimentos, é impossível passar incólume nessa vida, sem em algum momento, ser abatido pelo sentimento melancólico.

Existe em mim também a tristeza física e hormonal, que entre todas, creio seja a de mais fácil tratamento, pois pode ser combatida com antidepressivos, que tomo desde muito pequeno, com períodos longos de intervalo entre um tratamento e outro, mas vez ou outra, me vejo obrigado a buscar esse recurso.

Posso afirmar, empiricamente, que a tristeza física é um fato, pois a resposta a medicação faz efeito e ela some, mas ainda ficam as outras, ou seja, apenas uma pequena parcela está resolvida, restando todas as outras, para as quais, um comprimido é um mero esforço inútil.

A tristeza circunstancial é a que mais me acomete. Qualquer fator externo é capaz de desencadear uma reação em cadeia, causando o desequilíbrio. Esse fator pode ser uma notícia de jornal, uma foto, uma música e pronto, a tristeza foi instalada com sucesso.

Minha busca vai se concentrar nessa tristeza circunstancial e na transgeracional, pois para mim, elas estão intrinsicamente ligadas, sendo praticamente impossível saber onde termina uma e começa a outra. Tenho plena consciência de que as alterações circunstanciais encontram eco no transgeracional, remetendo-me, ainda que inconscientemente, a situações traumáticas, que me levam para a tristeza aguda, e esta,  ao longo do tempo, como consequência de um mal crônico, se transforma em dor física.

Minha viagem será a esse ponto, buscar nos recônditos do meu ser, esse lugar onde ecoa a tristeza do mundo, esse peso que sinto em minhas costas todos os dias, que vai muito além da empatia pela dor do outro, que é um sentimento nobre, mas vejo em mim algo maior, mais exagerado, que nitidamente grita por socorro, que dá voz e amplifica toda a dor que está ao meu redor, mas que também me destrói um pouco a cada dia.

Uma das minhas hipóteses será encontrar esse ponto de convergência, onde o meu eu se identifica com toda essa dor, a absorve e a potencializa, pois somente ao identificar esses pontos é que, acredito, vou mudar algo.

Ainda assim, é possível que essa melancolia me acompanhe para sempre, afinal, já somos companheiros de jornada por décadas, mas que ao menos esse convívio seja menos penoso e doloroso.

Em cima desse ponto central é que todo o restante dessa história irá se desenrolar. Vamos começar!

 


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